
Hoje vivi uma situação aparentemente simples que me fez pensar sobre algo muito maior: a nossa dificuldade de confiar.
Eu estava fazendo uma compra e o pagamento havia sido aprovado pelo cartão. Eu tinha recebido a confirmação e enviado os comprovantes ao vendedor. Ainda assim, como o dinheiro não havia chegado à conta dele, ele decidiu não liberar o produto.
Eu compreendi. Ele precisava se proteger.
Mas aquela situação me fez pensar em como a confiança aparece — ou deixa de aparecer — nas nossas relações.
Hoje, muitas vezes, não basta a palavra. Precisamos de provas, confirmações, garantias. E isso também acontece no amor, nas amizades e na família.
No relacionamento amoroso, isso pode aparecer de maneiras muito cotidianas. A pessoa quer saber onde o parceiro está, acompanha sua localização, espera mensagens ao longo do dia, observa mudanças no comportamento, verifica o celular, interpreta uma demora na resposta ou sente necessidade de confirmar constantemente que está tudo bem.
Às vezes, essas atitudes são apresentadas como cuidado, interesse ou até como uma forma de manter a proximidade. Mas, em alguns casos, por trás delas existe uma pergunta silenciosa:
“Você ainda está comigo?”
Ou, mais profundamente:
“Você vai me abandonar? Vai me enganar? Existe alguma coisa acontecendo que eu ainda não descobri?”
A vigilância surge, então, como uma tentativa de diminuir a angústia.
Freud nos ajuda a pensar que aquilo que vivemos no passado não necessariamente fica no passado. Experiências que não foram elaboradas podem continuar atuando no presente e aparecer através da repetição.
Quem já foi enganado pode passar a esperar o engano. Quem já foi abandonado pode permanecer atento aos sinais de abandono. Quem aprendeu que as palavras nem sempre correspondem aos atos pode precisar constantemente de provas.
Não necessariamente porque o outro esteja fazendo algo errado, mas porque uma experiência anterior ensinou que confiar pode ser perigoso.
A desconfiança pode funcionar como uma tentativa de proteção: se eu conseguir perceber antes, talvez consiga evitar o sofrimento depois.
É por isso que alguém pode precisar saber onde o parceiro está a todo momento, querer conversar durante todo o dia ou sentir necessidade de verificar o celular. A questão nem sempre é descobrir algo. Às vezes, é tentar produzir uma sensação de segurança.
Mas existe um paradoxo: quanto mais provas precisamos para nos sentir seguros, mais provas passamos a precisar.
A confirmação alivia a angústia por alguns minutos. Depois, uma nova dúvida aparece. E então precisamos novamente perguntar, verificar, acompanhar, conferir.
Winnicott, ao pensar sobre a construção da confiança, nos mostra que ela não surge de uma única grande prova. Ela é construída através de experiências repetidas de cuidado, continuidade e confiabilidade.
Talvez seja por isso que a confiança seja tão delicada.
Ela não nasce quando alguém promete que podemos confiar. Ela se constrói na experiência de perceber, repetidamente, que aquilo que o outro diz encontra correspondência em seus atos.
Mas quando nossas experiências anteriores foram marcadas pela quebra dessa confiança, podemos passar a exigir do outro atual uma quantidade de provas que nenhuma relação consegue oferecer.
É como se a pessoa do presente precisasse provar continuamente que não é aquela que nos feriu no passado.
E nenhuma quantidade de provas é capaz de produzir uma certeza absoluta.
Isso não significa que devemos confiar cegamente ou ignorar sinais concretos de que algo está errado. Existe uma diferença entre reconhecer um perigo real e viver permanentemente esperando que ele apareça.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja justamente:
Estou desconfiando porque existe algo acontecendo nesta relação ou porque alguma experiência anterior me ensinou que preciso estar sempre em alerta?
Essa pergunta não elimina o risco de sermos decepcionados. Afinal, confiar nunca será uma garantia de que o outro não nos fará sofrer.
Mas pode nos ajudar a compreender algo fundamental: às vezes, não estamos apenas tentando conhecer o outro. Estamos tentando nos proteger de uma história que ainda permanece viva dentro de nós.

Talvez confiar seja isso: conseguir reconhecer o passado sem obrigar o presente a repeti-lo.
E talvez seja justamente através de novas experiências de confiabilidade que possamos, pouco a pouco, descobrir que nem toda relação precisa terminar como as anteriores.